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Reféns de um clã: o WhatsApp expõe os bastidores do bolsonarismo

Por Jow Oliveira - Diretor de Comunicação SSPMI | Em meio ao ruído ensurdecedor das redes sociais, emerge um retrato perturbador do bolsonarismo — não como uma ideologia idealizada, mas como um cálculo frio, traçado em mensagens privadas e interesses pessoais. Isso é o que revela o inquérito da Polícia Federal envolvendo Jair e Eduardo Bolsonaro, exposto nesta quarta-feira (20 de agosto de 2025) pelo colunista Jamil Chade.

Nas mais de 170 páginas do relatório, o Brasil surge em segundo plano. O que salta aos olhos são conversas voltadas à proteção de privilégios, tentativas de asilo, lobbies, disputas por protagonismo e até planos envolvendo operações financeiras duvidosas. Os diálogos demonstram uma coordenação meticulosa — mensagens curtas, chamadas por voz, troca de códigos — que exalam uma estratégia consciente para evitar rastros.

Esse "zap que pegou fogo" escancarou a lógica do poder bolsonarista: troca de farpas, traições em família e uso de seguidores como massa de manobra, tudo articulado em nome de interesses escusos. O país, reduzido a refém, passa a ter sua voz diluída diante dessa chantagem obscena.

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Milícias digitais e o gabinete do ódio: uma trama bem orquestrada

Esse modus operandi não é novidade. Ele ecoa práticas como o famoso "gabinete do ódio", um núcleo informal dentro do Planalto que, desde 2019, arquitetava campanhas de fake news e ataques sistemáticos, coordenados por Carlos Bolsonaro e assessores próximos.

Mais recentemente, a PF apontou o uso de "milícias digitais" — grupos organizados, que funcionam como verdadeiros exércitos virtuais. Esses grupos disseminam conteúdos enganosos, deslegitimando opositores e influenciando o debate público em plataformas como WhatsApp e Telegram.

Mesmo com Jair Bolsonaro proibido pelo STF de usar redes sociais, seus aliados continuaram alimentando essas redes de desinformação: um levantamento identificou mais de 300 compartilhamentos de vídeos alinhados à narrativa bolsonarista, articulados por figuras como Silas Malafaia e outros operadores de comunicação.

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Vozes amplificadas, país silenciado

Essa comunicação digital participou ativamente na conquista dos votos. O termo “tia do zap” sintetiza o perfil de quem disseminava essas narrativas em massa: indivíduos conservadores, com baixo letramento científico, replicando boatos em grupos familiares e comunitários — uma estratégia eficaz e perigosa.

Enquanto isso, estruturas invisíveis se consolidavam para manter essas redes ativas, mesmo diante de restrições judiciais. Segundo pesquisa PoderData realizada entre os dias 26 e 28 de julho de 2025, 40% dos eleitores consideram errada a decisão do ministro Alexandre de Moraes de proibir Bolsonaro de se manifestar nas redes. A decisão foi vista como um cerceamento por parte de muitos, inclusive entre apoiadores.

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Fronteiras ideológicas em movimento: o bolsonarismo jovem em xeque

O bolsonarismo tradicional, centrado no cruzamento entre conservadorismo e evocação de passado autoritário, enfrenta hoje um desafio interno: uma nova ultradireita começa a se consolidar, oferecendo à juventude uma rebeldia revisitada, longe do sistema convencional das bandeiras de esquerda ou direita.

Essa nova vertente — que encontra apoio em discursos evangélicos da prosperidade e em narrativas de autonomia econômica — atrai um eleitorado mais jovem e crítico, que recusa o legado da política tradicional. Esse novo símbolo de contestação pode eclipsar o bolsonarismo de raiz e reconfigurar o mapa ideológico nacional.

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O país no segundo plano; o clã, em evidência

O que se desenha, com base no inquérito e nas evidências investigativas, é um bolsonarismo menos epifânico e mais pragmático — ou cínico. Um sistema político feito de protecionismo familiar, manipulação digital, lutas internas por relevância e uso estratégico da comunicação para balançar instituições, sem compromissos com a verdade ou com o país.

Esse relato não é apenas político; é sintomático: expõe um sistema de poder que trocou o debate ideológico por instrumentos de controle — e relegou o Brasil ao papel de marionete nas mãos de um clã.

Crédito Foto: UOL